O sangue dos heróis está mais próximo de Deus do que a tinta dos sábios e as orações dos devotos.
(Evola. Metafísica da Guerra)
O homem não é uma construção estática, sólida ou rígida, tampouco repousa sobre uma alma eterna e imutável. Ao contrário, é um campo incessante de forças, uma sinfonia de desejos e tensões profundas. Sua natureza é pura volição, ardência, impulso vital. Frente a esse destino, não há escolha senão vibrar na colisão de suas energias, lançar-se, destemido, no abismo que o espera e transfigurar sua própria pulsão em um ato de afirmação intransigente de sua condição sempre incompleta. Em outras palavras, sua única tarefa é o repúdio a toda amarra limitante erigida pelo medo e pela fraqueza. A verdade, reconheçamo-la, é que o homem nasce na luta, no imensurável fluxo do mundo e na cadência do seu vazio.
A experiência humana é um confronto perpétuo contra a imobilidade. Uma guerra infindável travada contra a solidez e contra a quimérica e medíocre ilusão de uma eternidade imutável. O homem vê-se, portanto, submisso à imperiosa necessidade de ação. E, em consequência, nada lhe resta senão o feroz combate contra a paralisia da inação. Não há espaço para a fraqueza. E mais: deve-se travar uma batalha implacável contra a fraqueza! É preciso morte à covardia! O homem fraco é um inimigo dos deuses, um anátema, um sabotador que, em seu atentado, perverte a potência vibrante e pulsante do mundo, estagnando-se diante do fluxo das forças vitais que, como um vulcão em erupção, clamam pelo avanço, pelo movimento, pela expansão infinita. A fraqueza é uma redução do horizonte: oprime, encolhe, aprisiona. O covarde, ao ceder à inação, é por essa razão um enfermo cujo ímpeto está enredado no pântano da decadência, condenado à morte de todas as suas possibilidades.

O impulso vital que atravessa o mundo, essa força insaciável que lateja no coração da natureza, é a expressão de uma potência divina, uma marca indiscutível de uma ontofania primordial. Nesse abismo de forças, talvez se abrigue a ideia mais profunda de Julius Evola, embora uma das mais polêmicas ao longo da história: o sacerdote é, e precisa ser, um guerreiro. Não nos referimos ao guerreiro que adorna o imaginário popular, mas ao guerreiro-sacerdote, cuja alma ardente é movida pela necessidade visceral da ação. Ele é aquele que se entrega, sem reservas, ao furor expansivo dessa força cega e inquietante que pulsa por todo o Cosmos. Um bailarino que dança, com uma graça feroz e um sorriso no rosto, ao ritmo do pulsante sangue dos deuses. Por isso, o sacerdote que se exila do tumulto do mundo, que se limita à contemplação inerte e passiva, é uma sombra que se volta contra a própria sacralidade ativa da vida.
Portanto, é imperativo que nos armemos com a força e a audácia necessárias para, imersos no compasso da pulsação telúrica e no sangue divino que reverbera nas entranhas do cosmos, aspirarmos à mais sublime expressão do homem, à expansão radical de seu vitalismo. Este deve ser o seu destino supremo, o alvo inalcançável de seus impulsos, que, embora jamais se consuma na plena realização, segue sempre fitado por uma marcha incessante. É sempre um querer, sempre um movimento, sempre uma pulsão: o homem é um projeto eterno e inacabado. O além-homem, portanto, não se configura como um ponto de chegada, uma meta acessível, mas como a medida constante, o norte incandescente, o ideal vertiginoso que o homem, em seu apogeu de força e amor pela vida, anseia alcançar. Como nos lembra Nietzsche:
Jamais existiu um super-homem. Eu os vi ambos, o homem maior e o homem menor: Ainda se parecem demais um com o outro. Na verdade, até o maior, achei-o — humano demais!
(Nietzsche. Assim falava Zaratustra)
Ademais, tal como disseram Klossowski e Deleuze, é imperativo compreender que a vontade de potência, esse ímpeto primordial que arde nas entranhas do homem, esse fogo que o impele em direção ao além-homem, à mais extrema e desmedida exaltação de sua força vital, não se reduz a um mero e vulgar desejo de dominar o Outro. A vontade de potência não é um apetite mesquinho pela subjugação do frágil, mas uma imersão vertiginosa do homem em seu próprio sangue pulsional, em seu abismo vívido, onde ele se lança em uma guerra sem tréguas contra as correntes que o amarram, contra as fraquezas e limitações que o encadeiam e obstruem o caminho para a plena explosão de suas potencialidades e para a realização suprema de suas possibilidades.

Neste ponto, o imperativo da ação funde-se, com violência necessária, ao corpo. O corpo, esse campo de pulsões insubordinadas, é o único templo que abriga, em sua carne, a força irreprimível das divindades e suas tensões vitais. E que se entenda: não se trata apenas do corpo humano, mas do mundo como um corpo orgástico, um hilozoísmo, uma manifestação selvagem de vibrações que se entrelaçam em um jogo de aparências e imagens fugazes. O universo não é senão uma teia frenética de forças sagradas dançantes. E essa dança, longe de ser uma mera revelação externa ou reflexiva do divino, é a própria simbiose das divindades, um isomorfismo entre a terra e o Olimpo.
Entretanto, os deuses não se contentam em dançar apenas nas vastidões do céu, nas nuvens carregadas de fúria, na trajetória harmônica dos astros, nas metamorfoses do ciclo das estações, nem na selvageria primitiva da vida animal ou nos mistérios sombrios da floresta. Ao contrário, eles se insurgem também no corpo humano, com uma energia intransigente e desmedida, no calor inclemente dos desejos, nas paixões que o dilaceram e o consomem, nos amores que o destroçam e o exaltam em um êxtase contraditório. O corpo humano, em sua carne crua e pulsante, é uma arena de batalhas titânicas onde o homem, em sua fragilidade e grandeza, despedaça-se e se refaz: ora derrotado, ora triunfante. É aqui, no ventre dessa luta sagrada, dessa guerra santa, que a força divina se inscreve com uma violência pura e primordial e onde o homem e os deuses tornam-se indistinguíveis. Diz-nos Walter Otto:
As musas não ensinam o canto, mas onde quer que se cante são elas a cantar, assim também, no plano da ação, os deuses não são apenas aqueles que outorgam a decisão, a força e o êxito: são eles mesmos os agentes. (…) Logo, os deuses não se manifestam apenas nos fenômenos da natureza e nos acontecimentos fatais; manifestam-se também no que move o homem interiormente, determinando sua atitude e suas ações. (…) O que move o homem no seu íntimo é o ser tomado por divinas potências que, como tais, por toda parte atuam.
(Walter Otto. Teofania)
Uma consequência frequentemente incômoda dessa ideia é a revelação brutal da amoralidade divina. Em outras palavras, uma vez que toda ação humana é gerada pela intervenção do sobre-humano, as ações divinas tornam-se simultaneamente aterradoras e grandiosas, trágicas e miraculosas. Quem erra, assim, não o faz simplesmente por um capricho vicioso, nem carrega em si toda a culpa pelos seus desvios. No fundo de tudo, o que realmente determina o destino humano é a imposição das forças divinas — os deuses vitais, selvagens, que dançam, frenéticos e incontroláveis, no abismo do coração humano. Essa realidade impõe-se de maneira impiedosa quando Agamenon tenta se reconciliar com Aquiles:
Frequentemente culpavam-me (…); contudo culpa não tenho nenhuma senão tão-somente Zeus grande, a fatal Moira e as Erínias que vagam nas trevas espessas. Uma cegueira feroz me ensejaram tais deuses no peito (…). Como pudera eu reagir? São os deuses que tudo dispõem.
(Homero. Ilíada, XIX)

De qualquer forma, o fato irrefutável é que os deuses dançam: dançam nas entranhas pulsantes do corpo, em sua selvageria indomável, em seus desejos que ardem como vulcões e em seus ímpetos que incendeiam o espírito. As divindades não são espectadores distantes, mas são cada fibra, cada veia, cada respiração ofegante. Por essa razão, que grande desonra, que pecado abissal comete o homem contra os deuses quando permite que o corpo, essa expressão máxima de potencialidade divina, esse templo sagrado de força e beleza, se entregue à inércia, à letargia, à negação covarde do mundo e à contemplação passiva, essa máscara da fraqueza!
O corpo que se paralisa, que se submete à inércia, que se curva como um escravo à preguiça, é um corpo que trai sua própria natureza, que amaldiçoa a chama sagrada da vida e cospe sobre o altar da potência do mundo. Não há espaço para a passividade. É necessário agir, é imperativo mover-se, é vital dançar: dançar como um sacerdote exaltado, em êxtase, que celebra a vida com uma entrega visceral e um sorriso no rosto. O corpo deve ser um festival selvagem, uma erupção de força primitiva, um cântico de guerra. Somos convocados, tal como anunciou Yukio Mishima, a um novo misticismo da carne: uma religião do músculo, do sangue, do suor, da pele e do corpo. Tal como Nietzsche, creiamos somente num deus dançarino.
Lamentavelmente, sobretudo ao longo da história da filosofia, após o naufrágio do paganismo e a trágica ascensão da onto-teologia — onde o ser se desfez de sua vitalidade, transformado de um campo pulsional de forças telúricas em um princípio absoluto e frio, um summum ens petrificado e distante — o pensamento humano perdeu-se em uma jornada desesperada e decadente, perseguindo reinos invisíveis, mortos e transcendentes além da força bruta da terra viva. Como Goethe, através de Mefistófeles, nos alerta, o homem da filosofia e da metafísica, em sua cegueira suicida, busca a morte atrás da aparência da vida, busca um cinza que se esconderia sob as cores vibrantes do mundo. Desse modo, o corpo foi deixado à margem, ignorado, abandonado à sorte: o homem, em sua busca infrutífera pelo transcendente, esqueceu-se da força bruta que caracteriza seu corpo, que, por sua própria natureza, é a expressão mais verdadeira da vida e do divino. Por esse motivo, escreve Mishima:
Por que os homens sempre buscam as profundezas, o abismo? Por que o pensamento, como um fio de prumo, deve se preocupar exclusivamente com a descida vertical? Por que não era viável para o pensamento mudar de direção e subir verticalmente em direção à superfície? Por que a área da pele, que garante a existência de um ser humano no espaço, deveria ser mais desprezada e deixada à mercê da sorte? Eu não conseguia entender as leis que governam o movimento do pensamento — a maneira como ele era suscetível a ficar preso em abismos invisíveis sempre que se propunha a ir fundo; ou, sempre que mirava nas alturas, a voar para céus ilimitados e igualmente invisíveis, deixando a forma corpórea injustamente negligenciada.
(Yukio Mishima. Sol e Aço, II)

Por isso, Nietzsche — como sabiamente ressaltado por Pierre Hadot — bate seu martelo contra a estéril, quase diabólica, vontade-de-verdade que domina a filosofia ocidental, especialmente em sua faceta metafísica. Essa vontade maldita condena o homem à obsessão infrutífera de tentar rasgar o véu de Ísis, em uma busca desesperada pela revelação dos mistérios do Cosmos. No entanto, esse mesmo homem, cego por sua própria fraqueza, não percebe que por trás do véu vibrante e sedutor só se esconde a morte e o abismo insondável. A vida, com suas cores fulgurantes e seu vigor indomável — e é crucial que se grite isso aos quatro ventos — reside na pele, na superfície, no “Olimpo das aparências”, como Nietzsche poeticamente proclama. O fundamento das aparências é o abismo. O mistério de Ísis é um vazio pulsional que nos presenteia com o espetáculo vertiginoso de seu jogo de máscaras, de seus véus flamejantes e multicoloridos.
Mantemo-nos corajosamente à superfície, nas roupagens, na pele. Adoremos a aparência e acreditemos nas formas, nos sons, nas palavras, em todo o Olimpo da aparência.
(Nietzsche. A gaia ciência)
Assim, a força de que falamos — e é importante reiterar — não se reduz à mera potência física. Sem dúvida, a busca pela força física é um caminho inegavelmente sagrado, mas antes de tudo, estamos tratando da força do guerreiro-sacerdote, do homem que, em sua profundidade, anseia pela realização do seu além-homem. Falo do herói indomável, aquele que, com uma garra implacável e uma coragem primitiva, move-se com a intensidade insana de um trovador arrebatado pela paixão e a frieza cortante de um guerreiro que desafia a própria morte. Ele não murmura: ele grita, com todo o seu vigor, um “sim” ensurdecedor ao mundo e suas potencialidades selvagens. Em outras palavras, a força que buscamos aqui não é simplesmente o vigor físico, mas a força visceral capaz de mergulhar sem hesitação nas profundezas vertiginosas do sangue divino, na dança eterna e tumultuosa entre o amor e a contenda, a infinita e insaciável energia vital do corpo sagrado do mundo.

Trata-se de uma coragem indomável que devemos cultivar para, como nos incita Nietzsche, permanecermos firmes à superfície, à flor da pele, à ardência da carne. Não nos importa se a afirmação do corpo manifesta-se na dança, na ginástica, na musculação, nas artes marciais ou na transgressão dos próprios limites de flexibilidade e mobilidade. Tampouco nos preocupa se a afirmação do corpo expressa-se no frenesi do sexo, na ebulição do erotismo, ou na obsessão teatral das artes cênicas. Cada uma dessas formas é, de fato, um rito sagrado, um culto pagão, um desdobramento pulsante da força vital que habita nossa carne. Contudo, há uma única exigência, um único dogma que deve ser reverenciado por todos esses atos sagrados: é preciso vibrar com as potências do corpo e afirmá-las com o ardor de um amor selvagem. O corpo deve dançar, deve desbravar os seus limites, deve explorar as suas possibilidades, ou se perderá na imundície do sedentarismo. Aqui, a lição de Sócrates faz-se implacável:
É vergonhoso envelhecer sem jamais ter alcançado o seu estado corporal mais belo (kallistos) e mais forte.
(Xenofonte. Memorabilia, III, 12, 8)




Deixe um comentário