Assim é o sevo, inefável, irresistível raio,
Aguda seta do arrojador flamante
Que faz a terra tremer — e o mar se lhe resplandece —
Causando estupor às feras que escutam seu estampido
E as faces têm alumbradas ao trom e à luz do corisco
Radiante no éter côncavo: assim tu rasgas a veste
Que cobre o céu, e argênteo raio despedes.
Hinos Órficos 19. Perfume de Zeus Tonante. Trad. Ordep Serra.
O relâmpago de Zeus não é um relâmpago qualquer! Não é a faísca cega que desliza pelo céu como mero efeito da física, reduzida a um jogo de cargas e descargas, prisioneira da causalidade mecânica. Tal visão é o sintoma de um olhar embotado, decadente, de uma era que perdeu o dom da grandeza e do espanto. O verdadeiro relâmpago — o relâmpago hierofânico de Zeus — é a cintilação de um Instante (Augenblick) único, especial e singular: um golpe de luz no qual o tempo, tal como o concebem os mortais, desfaz-se como névoa diante do sol. O que resta não é mais passado, presente ou futuro como meros fragmentos de uma linha cronológica, mas apenas o tempo do ser, o tempo do acontecimento. Em outros termos, o relâmpago do Zeus lampejante abre na terra uma fenda para a irrupção do próprio tempo do “aparecer” (Aufgehen). Trata-se da inauguração de uma dobra para o instante em que o mundo irrompe de seu segredo abissal e manifesta-se iluminando a clareira do ser na cadência da música das Musas.
Lembro-me de uma tarde, durante minha estadia em Egina, em que vi um raio único (…). Pensei: Zeus.
Martin Heidegger.

É aqui! É sob esta perspectiva que somos instigados a mergulhar na meditação de um passado mítico — um passado que não se esfarela como poeira arqueológica, que não se curva ao esquadro dos historiadores, que não se dissolve nas medidas frias do relógio. Não é um passado confinado à ordem cartesiana do tempo cronometrado. Pelo contrário, trata-se d’um tempo que pulsa no ritmo secreto do mito. O que nele se desvela é o tempo sagrado dos deuses, a era em que as forças ontofânicas da terra, nômades e inassimiláveis, dançam em êxtase primordial, metamorfoseando-se em um jogo vertiginoso de máscaras, imagens e formas da natureza.
Em suma, e justamente por não se tratar de um passado histórico, mas mítico, não é um tempo que se deixa capturar pelas frias ferramentas da arqueologia. Não nos cabe recordá-lo como quem rememora eventos extintos, mas sim tocá-lo, atravessá-lo — afundarmo-nos na fenda aberta pelo raio de Zeus e embriagarmo-nos na atmosfera rarefeita de um tempo que escapa às rédeas da cronologia. A verdadeira anamnese, aquela que pertence à deusa Mnemosyne, não é uma simples evocação da memória ordinária, mas um mergulho extático num passado que jamais se perdeu, pois nunca esteve encerrado na linearidade. Ele não se esvai como a história dos homens, mas vibra em torno de nós, incessante, palpitante, à espera de ser novamente vivido — não um passado morto, mas um passado que pulsa em cada instante, pronto para ser despertado pelo olhar que ousa avistar seus rastros divinos.
O passado assim revelado é mais que o antecedente do presente: é a sua fonte. Ao remontar a ele, a rememoração procura não situar os eventos num quadro temporal, mas atingir as profundezas do ser. (…) O privilégio que Mnemosyne confere ao aedo é o de um contato com o outro mundo, a possibilidade de nele entrar e dele sair livremente. O passado surge como uma dimensão do além.
J.P. Vernant. Aspects mythiques de la mémoire en Grèce.
Daí, portanto, a raiz da crença do homem antigo na doutrina do eterno retorno. Ele não se dobra à concepção estéril de um tempo que se esvai como areia entre os dedos; ao contrário, ele sabe — sente! — que o tempo do acontecimento, esse tempo singular, consagrado, não se encerra na voragem do passado, mas permanece eternamente acessível. Enquanto o homem moderno, cativo da linearidade histórica, imagina-se arrastado por uma corrente inexorável na qual o que passou está irremediavelmente perdido, o homem arcaico, por outro lado, enxerga-se em meio a um ciclo vivo, onde o passado mítico nunca se fecha, mas pode ser incessantemente revivido, reatualizado — “infinitamente recuperável”, como nos ensina Eliade. Pois o tempo mítico não é um marco estático num calendário extinto; ele ressoa nos ritmos do cosmos, aludindo sempre ao ab origine, ao in illo tempore, às eras primevas que escapam ao peso da cronologia e cintilam além dos muros do tempo profano.
O homem antigo, todavia, não se lançava em qualquer ciclo — ele se precipitava no abismo de um tempo vivo, palpitante, irredutível ao tédio da repetição. O eterno retorno nunca foi a ilusão de uma repetição pálida de eventos consumidos pelo esquecimento. Não, o retorno não é uma cópia fatigada, mas a faísca de um renascimento: a aparição intempestiva do tempo ontológico, onde os deuses, esses andarilhos imortais, deixam seus rastros fulgurantes. Não se trata de um giro mecânico, mas de uma reanimação: um olhar incendiado para um passado que não é passado, porque não repousa, não se cristaliza — ele cintila, flui, arde. Eis por que Deleuze, ao resgatar Nietzsche, vê no eterno retorno não a repetição do idêntico, mas a eterna recorrência da diferença: a cada imersão no tempo mítico, os vestígios do sagrado não apenas reaparecem, mas emergem transfigurados, irreconhecíveis e, ainda assim, familiares. Irreconhecíveis precisamente porque o que retorna não são meros espectros do passado, mas familiares porque são os rastros ardentes das forças errantes, sempre fugidias, sempre insurgentes; roupagens de um deus que dança e jamais repousa na prisão da identidade. Ei-la: a eterna novidade do mundo.
A ciclicidade aqui, portanto, não é a monotonia de um giro vazio, mera repetição, mas a vertigem dionisíaca — frenética, pulsante, espiralada, incendiária. Por isso, é serpentina: uma serpente viva, ardilosa, que crava os dentes na própria cauda. Mas que cauda? Jamais a mesma! A cada dentada, devora-se e renasce, dissolvendo-se no próprio veneno para erguer-se outra, e outra, e outra. O novo nunca se consuma, pois no instante em que se forma, já se desfaz. E assim se revela: tal serpente recria-se precisamente em seu suicídio: sua autopoiese não é senão sua autofagia. Eis o enigma do ser que se desvela apenas ocultando-se, que brilha no mesmo instante em que se eclipsa. São os deuses embriagados do próprio êxodo, que não falam senão por vestígios, rastros, acenos — porque, no instante em que se dão, já se retraem, já escapam, já desertam: recusam qualquer prisão, qualquer forma, qualquer substancialidade.

Assim também é Ártemis, aquela que resplandece justamente em sua impenetrabilidade — uma deusa que se anuncia na renúncia, que se faz visível no próprio esquivar-se. Virginal não por pureza, mas por indomabilidade, impenetrabilidade, por ser terra onde nenhum pé finca, relâmpago que nenhum olhar captura. E, no entanto, selvagem! Descalça, ri entre as árvores, dança com as ninfas, corre com os animais: sua pulsação é a própria batida da floresta; sua virgindade é sua própria nudez indomável. Assim é a vida, assim é o eterno retorno — um jogo de aparição e fuga, de presenças que jamais se deixam fixar mas que sempre retornam transfiguradas. Sempre ressurge, sempre transmuta-se, sempre desliza para além do alcance. O novo não repousa: incendeia, estilhaça-se, some na poeira da própria dança divina.
Daí a falácia de todo reconstrucionismo, a miséria de toda nostalgia histórica, a balela de todo conservadorismo espiritual: o que se exige não é um regresso servil a um passado mumificado, morto sob o peso de arquivos e ruínas humanas, mas uma imersão furiosa no tempo mítico — o tempo selvagem do ser, do devir, da irrupção — o tempo dos deuses! Um retorno não à poeira dos séculos, mas ao sangue pulsante da vida. E para isso, não há que seguir pegadas desgastadas, não há que idolatrar os escombros de tradições extintas. O conservadorismo religioso rasteja atrás de espectros, crendo que neles repousa o segredo da eternidade; devora vestígios, confundindo-os com os próprios deuses. Mas esquecem-se do mais fundamental: ainda que sagrados, ainda que divinos, rastros são apenas rastros — e, como marcas na areia, dissipam-se ao primeiro sopro do vento, evaporam-se na voragem da história. Todo esforço por fixá-los é inútil, toda ânsia por aprisioná-los é um delírio de mãos vazias. Mas os deuses, felizmente, nunca cessam sua dança — rodopiam, insurgem, desaparecem, retornam. E assim, os rastros jamais se extinguem: apagam-se, renascem, reformam-se, reaparecem, sempre outros, sempre novos, no ritmo alucinado de seus passos insondáveis. O que se necessita, portanto, não é um código morto, não é uma tradição fossilizada, mas um salto no abismo do sagrado. Precisa-se de hierofania — do relâmpago que rompe a noite, da chama que queima sem jamais se consumir.
É somente assim — e unicamente assim — que o homem poderá reencontrar a senda daquela era áurea, perdida entre os véus do tempo: aquela “era dourada” em que os mortais não se curvavam ao fardo do tempo, mas desvaneciam como brisas suaves, e a primavera não conhecia ocaso. Não é pela reconstrução de costumes esvaídos, nem pela reimposição de dogmas já desfeitos — pois tudo isso é espuma sobre o mar dos deuses, dissolvendo-se ao primeiro sopro do caos. O caminho reside na vertigem da fenda, na sacralidade da abertura, na dobra onde o tempo mítico ainda respira e se oferece ao olhar daquele que ousa contemplá-lo. Eis, afinal, a queda da era de ouro e a ruína do idílio primordial: a ilusão de ter capturado o segredo do fogo divino, esse dom de Prometeu aos homens, e o erro fatal de transformá-lo em cárcere, de cristalizar o que só poderia ser dança, fluidez e relâmpago.




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