
Num beco pútrido, entre os escombros da viela e a sujeira da cidade, eu a vi. Ela se entregava — nua, febril, perfumada de podridão e sangue — aos poetas que haviam vendido a sanidade à deusa da terra. Nenhum filósofo, com suas mãos geladas e mentes mortas, ousava tocá-la; nenhum sacerdote suportava o choque de seu hálito podre; e nenhum homem puro sobrevivia à tentação de seu beijo. Era a Verdade: uma prostituta — uma prostituta faminta, impiedosa, vil, que ria da moralidade e cuspia no rosto da razão.
Os filósofos rastejavam-se diante dela, como cães famintos implorando por migalhas de sentido. E ela ria — gargalhava com um riso lúgubre, bestial e descontrolado. Os sacerdotes, em prantos, suplicavam-lhe pureza, tremendo diante de sua nudez sacrílega. E ela os beijava na boca com lábios de lama e sangue, até que engasgassem com a própria fé. Já os poetas, cambaleantes, bêbados de dor e vinho, ofertavam o coração ainda palpitante como um cálice sacrílego. E ela, faminta, bebia até o último resquício de lucidez. Essa meretriz saciava-se com o delírio humano e chupava a alma dos que ousavam amá-la, cuspindo de volta apenas o eco da insanidade.
Ela não habitava templos, nem se escondia nas bibliotecas frias onde os teóricos cavam tumbas com palavras mortas. Ela caminhava descalça sobre o lamaçal dos desejos, sobre a náusea e a glória da experiência humana, como um anjo caído e expulso do Éden — ainda sagrado, mas coberto de barro, terra e sangue. Ela então sussurrava aos ébrios, aos desesperados, aos que rezam de joelhos diante do abismo da vida: “Se me queres, queima-te! Sangra! Rasga tua razão e entrega-me tua loucura — pois só os febris e os condenados podem me tocar!”
Eu, com sorte — ou maldição — fui possuído. Não apenas possuído: fui devorado, consumido até a última fibra. Cada toque seu arrancava do mundo toda consistência; orgasmos e agonia se confundiam, prazer e dor se entrelaçavam como serpentes em êxtase. E então ela gemia — e o universo inteiro estremecia, rachando-se em pedaços que nenhum homem ousaria juntar. Quando me arranhou o rosto, o sangue que escorreu não foi dor: foi batismo, o selo da loucura divina. Desde então, carrego seu gosto na língua, lembrando-me de seu veneno e seu néctar, um sabor peculiar que dissolve toda lógica, toda pretensão intelectual, toda máscara. Ela ainda me visita, às vezes, nas noites em que o vinho se mistura ao meu sangue, deitando-se ao meu lado como o próprio caos encarnado. E eu aceito. Pois só quem se entrega à ruína total, à vertigem absoluta, consegue ouvir seu gemido — esse cântico sacrílego que rasga o céu e apodrece a sanidade.




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