
Eu o vi. Numa noite em que as estrelas haviam sido engolidas pelo vômito negro do infinito. Ele se ergueu diante de mim como uma árvore de pesadelo, um monstro vegetal que apodrecia o ar com a própria santidade e cuspia luz até cegar a carne e os olhos. Suas raízes sugavam a seiva do chão como dentes famintos, arrancando da terra cada vestígio de vida, e sua copa engolia a Lua e os astros, sufocando o céu num abraço de morte. E sua voz, dura como ferro retorcido, rachou a minha mente: “Eu sou o princípio e o fim. Eu sou Deus. Eu sou o Uno. Eu sou a Verdade. Bebe da minha seiva — e conhecerás o segredo da vida!”
Mas então algo rugiu dentro de mim — algo antigo como o pranto do primeiro animal que ergueu os olhos ao céu e compreendeu o desespero. Uma força abissal, telúrica, ancestral, irrompeu do fundo da minha carne, rasgando-me por dentro como se a própria Terra vomitasse seus deuses em minhas entranhas. Dionísio, o bêbado divino, o risonho sacrílego, dançou em minhas veias como um incêndio. Minha carne queimava, meus ossos vibravam, o cosmos inteiro contraía-se em minha respiração. E então, tomado por uma fúria sagrada, empunhei um machado — ainda úmido de sangue humano e divino, misturados de forma indistinta — e avancei, possuído, delirante.
Golpeei a árvore com uma fúria cega — era a fúria do próprio caos, vestida de carne. Cada golpe era um grito contra o céu, uma blasfêmia que ardia como êxtase, uma cópula entre a revolta e o sagrado. Cada estilhaço que voava era uma prece rasgada em desespero. E sob a casca — o que encontrei? Não a seiva redentora, não o mel da verdade, mas a podridão: uma tempestade de forças enlouquecidas, um enxame de pulsões que rugiam sem rosto, sem nome, sem alma, sem direção. Um caos vivo, espumando e rindo da ordem, cuspindo nos dogmas, devorando o sentido. E ali, no ventre obscuro da madeira ferida, estavam os deuses — não um, mas mil, talvez infinitos; não acima, mas dentro; não no céu, mas na ferida; não na luz, mas no abismo ardente de onde tudo sangra.
E então eu tremi. Um terror antigo me percorreu, gélido e viscoso. Fiquei atônito, paralisado, enraizado na própria incredulidade — e o mundo parecia rir de minha pequenez. Mas então… então eu ri. Ri como um possesso, como um condenado embriagado pelo veneno da verdade, rindo com dentes sujos de lama. Pois compreendi: o terror é liberdade. O vazio, a ausência de sentido, é a mais alta forma de sacralidade — terrível, bela, inebriante — sublime. O sagrado não veio como redenção à altura, mas como uma queda à profundeza, como um salto apaixonado no calor de um vulcão, como envenenamento, como o abraço frio do abismo.
E então compreendi: os deuses não são formas, mas pulsões da terra — o gozo e a decomposição, o orgasmo e a morte num mesmo sopro. A natureza é seu corpo, um corpo sem órgãos, sem nome, sem lei — apenas abismo, apenas o frêmito enlouquecido de forças dispersas, rizomáticas, incontroláveis, que se devoram e se recriam em cada instante. O homem, este verme que ousou sonhar ser espírito, é apenas um delírio passageiro dessa carne podre e sagrada, um espasmo do caos, um lampejo que acreditou ser estrela, uma ferida aberta no rosto sangrento da Terra. Mesmo sangue, mesmo pó, mesmo nada — e ainda assim, audácia suficiente para contemplar e rir do abismo.
Assim, se a vida é um rio sem margens, turvo, voraz e faminto, então eu o bebo inteiro — mesmo que me afogue nas suas correntes negras e devoradoras. Quero morder o mundo com dentes enegrecidos de sangue, rasgar o céu com gritos: Sim! Sim ao horror da vida, à sua beleza, mas também à sua tragédia, à sua feiura, à sua agonia! E enquanto o mundo girava em torno de seu próprio abismo, eu dançava — embriagado, possesso, delirante — em festa com os deuses inomináveis, que não salvam, que apenas devoram e vibram cambaleantes. E brado com eles, num coro dionisíaco: “A vida é simultaneamente o altar, o sacrifício e o deus. Que o sangue corra!”




Deixe um comentário