
Eu caí — não por erro, mas por fúria, por fome, por uma sede que nenhum paraíso poderia saciar. Caí porque o céu era um deserto branco, uma prisão feita de luz, onde até os deuses apodrecem em silêncio. A eternidade era um cadáver dourado, e eu, nauseado pela pureza, cravei meus dentes na própria divindade. Fui vomitado do firmamento como um espasmo sagrado, o aborto luminoso de um deus cansado de sua própria perfeição. Agora caminho entre o esterco e o infinito — um anjo enlameado, parido pela terra, amaldiçoado a sonhar com o céu. Minhas asas, sujas de barro e pó de estrela, sangram a cada batida — são o selo da minha queda, o preço da minha liberdade, a cicatriz da minha revolta contra Deus.
Todavia, há uma beleza monstruosa, quase imoral, em ter os pés devorados pela lama e os olhos crucificados no firmamento. O céu me seduz com seu cântico de ouro apodrecido, uma luz fúnebre que promete pureza. O barro, ao contrário, me chama com a voz da carne — úmida, quente, voraz — , e me engole como uma mãe faminta que devora o próprio filho para novamente parí-lo. Entre ambos — entre o infinito que me exila e a podridão que me acolhe — sou rasgado em duas direções: metade anjo, metade animal, um deus abortado que ainda sonha em voar com asas de lodo e sangue.
Eu sou — sim, sou, e digo sem remorso — o cadáver convulso de um deus que amou demais o que devia desprezar: a vida. E por tê-la amado com violência, com agressividade, caí — fui despido da eternidade, crucificado na carne, condenado à respiração e ao sangue. O êxtase estéril da perfeição me enojava; eu quis mais. Eu quis o cio sujo da terra, o suor da carne. Quis lamber o nada até sentir seu gosto metálico, quis tocar o abismo com os dedos em carne viva — e quando o fiz, o céu gritou meu nome como quem amaldiçoa um filho perdido.
E assim, rasguei minhas asas com as próprias mãos: quis sentir o peso do corpo, o fardo voluptuoso da queda e a força da gravidade que me puxa violentamente para o abismo. Troquei a eternidade pela combustão do instante, o céu pela febre da vida. E mesmo aqui, atolado no lodo, cercado de vísceras e silêncio, vi o sagrado — sujo, trêmulo, delirante: há um brilho impuro na lama, um cântico que ecoa entre ossos quebrados, uma melodia feita de gritos e sangue. Chamo isso de vida — essa blasfêmia divina, essa orgia cósmica onde o sagrado e o profano se penetram até se confundirem. Sim, eu caí — mas bendita seja a minha queda.



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